Quem sou eu

Eu sou eu, meus eus e os seus.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

DESABAFO CÍVICO

Permita-me um desabafo cívico: faz tempo que eu perdi a ESPERANÇA.
A minha Pátria amada, idolatrada, “salve-salve” tornou-se uma mãe impiedosa, indiferente, insaciável e cruel. Cheguei ao ponto de pensar que ESPERANÇA era um sentimento para tolos, ignorantes, simplórios e hipócritas…Eu vivi os estertores do regime militar. Tempo suficiente para sonhar que um novo Brasil era possível. Eu tinha ESPERANÇA. Eu chorava ao ouvir o Hino Nacional. Cantava com raiva daqueles que haviam se apropriado da nossa liberdade. Ansiava com algo que parecia impossível: o fim do regime. Era movido à ESPERANÇA.
Diretas Já! Fim da ditadura do cala a boca, dos grupos para-militares, das torturas, do entreguismo. Uma nova aurora raiou no horizonte. Ponto para a ESPERANÇA.
Só faltava o novo Brasil. Aí veio a idéia maluca de votar num metalúrgico, pobre, feio, de poucas letras, barbudo e sem um dedo minguinho.
A partir daí, a ESPERANÇA passou por duros golpes. O primeiro – e quase fatal – foi o Collor. A ESPERANÇA ficou asmática, mas resistiu, porque os “cara-pintada” foram às ruas e fizeram respiração boca-a-boca. Doses maciças de cidadania puseram a ESPERANÇA em pé, zero quilômetro. Afinal, o barbudo ainda estava no páreo.
Depois veio o Fernando Henrique. A ESPERANÇA agonizou por oito anos, com um intervalo de luz, para votar no barbudo. Ela quase desistiu, mas não se entregou. Afinal, quatro anos passam rápido.
Aí a ESPERANÇA se enfeitou toda para a festa da vitória. O barbudo ganhou de lavada. Ela pegou bandeira, pregou botton, gritou palavras de ordem, dançou e nada pareceu suficiente para expressar tanta alegria.
A ESPERANÇA ficou paralisada com os primeiros golpes contra ela. O projeto do novo Brasil, tão sonhado, não previa expedientes ilegais, para “garantir a governabilidade”. A cidadania deitou em berço esplêndido para se recuperar aos poucos. A ESPERANÇA ficou com vergonha e não encheu mais a minha paciência.
Eis que, como um lábaro estrelado, a ESPERANÇA tomou coragem e bateu à minha porta. Veio carregada por uma brasileira de verdade. Com cara de brasileira de verdade. Feia, pobre, seringueira e de formação universitária. Dona de coragem e sabedoria. Guerreira, trabalhadora e valente, como todas as brasileiras de verdade.
Quando surgiu, aliada a um partido sem expressão, me deu um cansaço: essa aí não leva nem pro fumo. Mas aos poucos, a danada foi atiçando a minha amizade pela velha e carcomida ESPERANÇA. O golpe de misericórdia foi quando a seringueira falou: “precisamos mudar os paradigmas”. Mudar os paradigmas! É isso! É exatamente isso, a base de tudo o que precisamos. Mudar a maneira de ler o mundo, de ler o Brasil. Cada um agindo de forma sustentável. Mudando discursos, estilos de vida. Nas mínimas coisas. Sem perder o foco no progresso, no desenvolvimento, mas mudando o combustível do carro, pegando mais ônibus, comendo carne dos campos de capim e não dos de madeira. Pedindo certificação da madeira dos nossos móveis. Escolhendo fornecedores, no dia-a-dia, que tenham preocupação com a ecologia. Com o nosso mundo. Isso é muito! Essa é a mudança que se faz urgente!
Nada da cantilena estéril, dos que transformaram a mídia eleitoral num televendas de promessas, ideologias e favores. Atiçando a máxima do: “se a farinha é pouca, meu pirão primeiro”. Discursos, miseravelmente, iguais: programas fantasiosos de última hora; promessas mofadas; baixarias, chicanas, clichês, clichês, clichês. A garantia de que tudo será como está, amanhã e depois de amanhã.
Aí veio a dona do bom senso e me disse. De que adianta votar nela? Ela não vai ganhar mesmo. Veio outra, a do senso estético e disse: ta maluco? Nem cara de presidente ela tem. Aí veio a dona da verdade e disse: vota na outra. Ou tu prefere que “aquele lá” seja presidente.
Foi o que eu precisava pra me decidir: eu voto na ESPERANÇA. Pelo menos no primeiro turno. Se um milagre acontecer, no segundo, também. Mas perdi a esperança de acreditar que Deus é brasileiro. Olha a Seleção… No segundo turno, se der a “lógica” eu ouvirei os conselhos das donas do bom senso, do senso estético e da verdade.
O barbudo fez o que um presidente tinha que fazer. Não fez tudo. Faltou muita coisa. Disse que não sabia da malandragem dos sepulcros caiados, que ainda estão impunes, mas vá lá. Mas foi ele.
Pelo menos, no Rio Grande do Sul, o Genro da ESPERANÇA está de volta. É o meu consolo.
Lá, em Brasília, se a ESPERANÇA tiver que esperar mais umas três eleições, para fazer a festa, eu aguentarei. Mesmo que seja taxado de tolo, ignorante, simplório, ou hipócrita.
Artur José Pinto
Diretor de teatro, um cidadão

Um comentário:

Ricardo disse...

faço das palavras mágicas deste cidadão...as minhas.
Viva o povo brasileiro.